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Faça-me o favor: não fale, não abra a boca.
Corra para a mesa, papel e caneta, e escreva.
Cuspa sua raiva, seu desespero, sua mágoa,
seu desgosto, sua amargura, sua lástima, sua pena.
No papel, preto no branco.
Vomite todos os palavrões que lhe surgem,
blasfeme se precisar,acuse, ofenda,
defenda-se, recrimine.
Soluce as palavras que editam suas lágrimas.
Seja prolixo, diga tudo até o esgotamento de seu pranto.
No papel, preto no branco.
Esgote todo argumento, toda reivindicação,toda comparação, toda chantagem.
Esvazie-se, esgote-se.
Mais folhas. Mais folhas.
Mãos que tremem, até parar.
Leia tudo de novo.
Palavras ilegíveis, escritas por quem?
Pense.
Transforme sua caneta em tesoura e pode.
Leia e pode.
Frases relidas enfraquecem a raiva.
Pode.
Razões amansam.
Pode, desbaste, apare.
Corte.
O sangue esfria, palavras perdem força.
Pode, desbaste, apare.
Corte.Rescreva.Corrija.
Corte.Rescreva.
Bolas de papel ao seu redor.
Papel picado no cinzeiro.
Folhas novas quase vazias.
No fim, duas simples frases.
Uma de mágoa, outra de perdão.
Está lá, nas folhas mal amassadas,
nos confetes de uma cor só,
a briga que não houve.
Porque a voz é indelével.

Bruna http://brnehring.blogspot.com/
Disponível para download em arquivos, poesias em áudio.

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