A máquina , a porca e o parafuso
(O homem e a peça em metamorfose)
Eu me vejo nas voltas de um parafuso,
confuso.
Perco-me na rosca
tosca,
viciada e sem fim.
Rodopio sem limite
e, por mais que grite
não olham pra mim:
Vou no aperto,
no arrocho,
não há acerto.
me machucam, sigo coxo.
E sempre mais voltas...
Na maquina perdido,
aturdido.
Ainda surgem dedos em escolta,
me seguem,
perseguem,
me imprensam,
não pensam.
E eu vou rodando,
chorando
no emperrado parafuso,
confuso,
sempre esperando
a tarrachada final
que virá, por bem ou por mal.
E tenso
agora penso:
Sou porca passiva?
Sou livre porca?
Vou no parafuso do ditador
ou naquele que quero?
Vou por imposição
ou por liberdade e amor?
Vou por tentação
ou lero-lero?
E tenso
agora penso:
Sou porca que escolhe
ou porca escolhida?
Há quem me tolhe
ou sou dona da vida?
De: O Diabo É Cor De Rosa_ Barros, Neimar.Sorvil, 1997.

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