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Nua e Crua

Não tendo pra onde voltar é que me largo pra rua,
Eu que seria leito de rio, leito de mar, maré,
Sem porto ou barco, peixe fora d´água, pássaro no vôo
Mas quede a asa?

Nome

Eu disse o nome do amor muito sem cuidado.
Disse o nome do amor quase por acaso.
Disse o nome do amor como por engano. Ainda assim
Meu corpo ficou cheio como umrio, da terra o coração habitando.

Geminiana


Esta quase sempre correu, fugiu da armadilha,
De ser prendida descobre o encanto. Amor
Que faz desta que sendo caça é caçador
E ama de maneira clara porque pertence aos ares.

Amurupé


Ao mar, ao mar – diz o velame à nave que o conduz
E à confundida cabeça geminiana: eu não te amo
Amo só o prazer que tu me dás.

Nome

E este amor doido,
Amor de fera ferida,
É esse amor, meu amor,
O proprio nome da vida

Pássaro

A noite não é tua mas nos dias – curtos demais para o vôo –
Amadureces como um fruto. Tuas asas seguem as estações.
É tua a curvatura da terra.

Cerne


Nada a ver com fonte mas com a sede
Nada a ver com repasto mas com a fome
Nada a ver com plantio mas com a semente.

O desejo absoluto

Criar o amado
Sem a injustiça da forma
Sem o egoísmo do nome.

Enquanto


Sou inconstante como o vento
Sou inconstante como a vaga
Porisso fica enquanto estou desvelada
Enquanto eu não for vento ou vaga.


Do seu livro Hai Kais, reunindo os 36 anos (1950-1986) de poesia, onde ela introduziu uma inovação: acrescentou um verso a mais, feito uma coda, um arremate, ou como ela mesma diz na introdução do livro: “(...) por assim dizer, como se faz em música”. Dela diz Gerardo de Mello Mourão: “(...) os hai-kais dessa amirável poeta que é Olga Savary. Ela guarda, com mestria maior, aquilo que os haikaistas definem como a virtualidade poética típica do hai-kai: - o conhecimento lírico que nos situa como ´num fio de navalha, entre o diáfano e o espesso`. (...) o contraponto do hai-kai brasileiro de Olga Savary, que guarda a inuberância – para usar uma palavra rilkeana – do cânon milenar de dezessete pés métricos. Cada um caindo sobre nós, lapidado como um cristal, mas também vivo como uma gota de orvalho, na brevidade de sua expressão. Como uma gota de poesia”.


SAVARY, Olga. Hai Kais. São Paulo: Roswitha Kempf, 1986.


 

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