Primaveras
Já vi tantas primaveras!
Algumas nem percebi, tão ocupada estava em fazer a minha vida. Quanta tolice!
Sabia ser primavera pela mudança na paisagem. Uma gama de flores de todas cores. E eu nem me percebia. Não entendia nem a minha natureza...
Claro que, como a maioria das mulheres, muito escutei em aniversários a tal expressão, tantas primaveras...
Pois confesso. Foram muitas! E mais. Agora são as melhores...
Atento mais para os detalhes. Percebo a repetitividade existente na natureza e isso em absoluto me causa enfado. Hoje sei dos ciclos eternos da vida e das nossas várias mortes. Dos movimentos constantes, do quão nefastas podem ser as intervenções desrespeitosas, da importância do meu olhar de aprendiz e das atitudes tidas e sidas, corretas.
Que nem sempre opor resistência é sábio, e que por vezes, persistência pode ser tolice. Antes parar que perder o rumo de si mesmo. Que deixar-se levar pode ser gratificante! A natureza nunca erra.
Aprendi também, que podas podem ser necessárias e que o tempo é sempre exato para toda mudança de estação. E que toda estação tem seu propósito.
Nos ipês as flores prenunciam a primavera...
As noites agora trazem um vento gostoso que alivia o calor e refaz a esperança de que logo venham as chuvas. O ar está rarefeito, a terra está ressequida, ressentida.
Aspiro o cheiro da terra molhada! Preciso respirar, sentir a natureza acontecendo. Vida correndo em minhas veias como água correndo sobre a terra. Já repararam com que intensidade a terra mata a sede? E na complacência da água que se abandona à queda para logo se deixar sugar, sem no entanto interromper seu curso?
E segue o veio parecendo as vezes brincar de rolar... embolar... como que buscando algo distante e em movimento constante. Sem pressa...
Para quem já caiu, agora é só deslizar, contornar os obstáculos e prosseguir na investida. Evaporando aqui, ali, naturalmente... Até seu fim atingir.
Assim, feito lágrima sentida que assoma, verte, escorre entrecortada por soluços e depois, expurgada a dor, acalma...
Ah! Sei sim... as águas nem sempre vem suavemente...
Como poderia ignorar?
Sou água!
Os ipês?
Ah! Os ipês resistem às agruras do inverno e florescem mesmo assim!
Vistos de longe parecem enormes buquês de delicadas flores roxas, amarelas, laranjas. Ostentam sua beleza sem a menor preocupação que logo suas pétalas estarão, tal tapete, florindo caminhos...
A natureza resiste e revigorada sempre ressurge. O sol na primavera reaproxima-se, aquece mais, parece brilhar mais.
Tudo tem seu tempo, que não o meu, e, que no tempo natural acontece.
E tudo que me resta é esperar naturalmente por muitas primaveras mais. E desejo primaveras com o curso das suas águas, com a exuberância das suas flores e frutos, tal a manga, que ainda verde, tem o formato de um promissor coração...

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