Carrego a tua falta
Tem dias que é inerente o afagar lembranças. Talvez porque tudo que me pareça palpável é um nada. Um vazio imenso, que se torna um insensível oco interior e a minha frente. E que, controversamente, dói.
Abstração também dói. E como! As vezes, a dor é tão intensa que quase que anestesia, entorpece... E quase que enlouquece. Então, minha mente busca afago, refugia-se nas lembranças... E por momentos me sinto plena de vida.
Alguém entende vida sem abraço, beijo, vontade de outrém? Eu não. Sinto muito, mas seria hipocrisia minha afirmar que sim.
Carrego falta. Sinto saudade, e tanta, que beira ao ostracismo. E choro a morte da única maneira que sei!
E brinco de que ainda há vida quando volto no tempo e com carinho te recordo e rememoro momentos bons nossos. A dor da ausência é tanta que me permito estes afagos. Não. Não penses que ignoro a realidade! Somente por um lapso de tempo, visito um tempo outro, aquele de felicidade.
Tua voz parece romper distancias e me chega ao ouvido. Ah! A doçura da tua voz! Cerro os olhos e sorvo cada palavra... A impressão é de que estás ainda aqui, ao meu lado. Afinal, estás falando comigo!
(Delírios da carência...)
Chego a visualizar teu semblante enquanto falas... Que bálsamo! Até ensaio erguer as mãos para afagar tua cabeça. Quase sinto os fios dos teus cabelos a deslizar por entre os dedos meus... Depois, minhas mãos afagam o rosto teu... A sensação da textura da tua pele está tão nítida ainda! Tateio teu rosto amado. E toda vez juro ser só mais esta!
Parece que sinto teu olhar expressivo sobre mim... Não me julgues. Não, não te culpes se em mim te esculpistes. Eu assim o permiti, quis ter marcas de ti.
...
Depois... Depois volto à realidade.
Partiste. Todos partem algum dia. Um dia todos partiremos.
É tempo de só. E só, enfrento a vida, resisto. Tento!
E digo a mim mesma que nasci só e sobrevivi. E sobreviverei, apesar das feridas que ardem fisicamente, da tua falta que fustiga mais que noite de inverno com vento e geada. E pouco agasalho...
Tua falta transpassa corpo, entrecorta pensamento e gela alma. Transcende minha compreensão. Desafia minha razão. Mas é a vida. É inerente a vida, a morte.
Fiquei só.
E uma outra dor, esta quase que racional, me aflige. A do saber que o tempo passa e distancia. E ameniza tudo.
E que, até minhas memórias serão com ele vagas lembranças...

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