Para sempre
Todos dormem e ela absorta em pensamentos, entre revoltas lembranças e emoções, perambula pela casa.
O corpo em deslocamento físico, o pensamento retroage e as emoções fazem um sorriso aflorar aos lábios.
Vivera e bem vivera. Namorara, tivera filho. Casara com quem e quando quisera. Mais filhos. Pedira separação quando a maioria opta por contar tempo e prevenir velhice solitária. Enfim, pertencia ela, a um novo perfil de mulher.
Não, não era feminista. Era uma sonhadora que acreditava no direito a ser feliz. Sem sapos ou principes encantados garbosamente montados em seus cavalos e os foram felizes para sempre.
A vida fora se apresentando e ela vivenciando sem comodismos ou conveniências.
Vivera como aprendiz intuitiva, afinal não era nenhum gênio. Embora se julgasse com uma certa capacidade intelectual, sabia-se mais emocional.
Hoje o neto remexera lembranças... Estava vivendo um grande amor, declarara.
Desacomodara emoções, desequilibrara a sua placida e aparente segurança pratica. Soprara tal qual brisa e levantara o pó do sentir puro, credulo e despojado. Arejara relíquias de bem querer, burilara ternuras profundas, arraigadas e na solidão afagadas.
Aquele olhar brilhante, o sorriso meio que bobo, o semblante alegre... Ela reconhecia os sinais.
E as palavras descritivas do amor pela amada?
Ah, ela ainda lembrava e bem destas coisas...
Haviam tido uma longa conversa.
Como tudo que é grande e lindo nem sempre é fácil, fácil também não seria para ele viver este amor. Ela e o neto sabiam disso. Mesmo assim ele mostrara-se disposto a enfrentar as dificuldades sem fugir às responsabilidades.
Queria o direito a viver e buscar a felicidade, a ser e estar inteiro. E recorrera à aprovação dela. Sabia da importância desta atitude diante da numerosa família.
E ela que sempre afirmara que o que levamos desta vida é o que vivemos, como diria não viva?
E o neto ali, diante dela, ansioso pela aprovação. Uma aprovação que traria à luz do dia o que já acontecia nas sombras e era do conhecimento de todos.
Ponderara, colocara todas as implicações e aprovara. Seria sempre pela vida!
Volta no tempo. O neto a fizera lembrar dela mesma.
Sorri ao recordar o amor vivido. Ele chegara quando ela nem cogitava mais este amar, porque o amor que ela acreditava, concluíra, só existia em livros, estórias.
Valera cada momento, cada detalhe, cada sorriso e cada lágrima.
Aprendera vida, na acepção da palavra, com aquele homem.
Aprendera que se doar não é anular-se.
Aprendera a olhar além, no horizonte e decidir ficar porque o que realmente significa está perto, dentro, não lá.
Aprendera a ternura que há no amor ao ceder, ao compreender, ao acatar.
Aprendera a diferença entre o respeito ao ser e respeitar o direito de ser.
Aprendera que amar é antes de tudo permitir-se sentir, despojadamente.
Aprendera a ouvir, ler, sorrir e calar.
Aprendera que amar era uma capacidade pessoal, especial era a pessoa que a despertava.
Aprendera que amar, na magnitude infinita do amor, é ir sempre além de si mesmo. Superar-se.
Amando aquele homem aprendera mais de si, sobre si mesma, que em todos os anos antes vividos.
“O troféu de um grande amor são as conquistas internas. As maiores batalhas do grande amor são travadas com nosso ego. Um grande amor confronta-se todo dia com nosso orgulho. Lutamos com a disposição de despir vaidades, abdicar de coisas dantes importantes para simplesmente ser, sentir, doarmo-nos. Cumplicidamos até nas omissões, porque quem sente um grande amor conhece e bem, as capacidades do ser amado. E mesmo assim ama porque o permite ser e permite-se amar, sem julgamentos”.
Seria o neto capaz?
Só o tempo diria...
E assim pensando, dirige-se ao quarto.
Melhor tentar dormir. Precisava descansar, o dia havia sido de forte emoção.
Ajeita-se entre os lençóis, fecha os olhos e lhe vem à mente a figurado homem amado como o vira pela ultima vez. Lindo!
Sorri sem abrir os olhos. Uma lágrima saudosa escapa, rola e repousa no travesseiro.
E na imensidão solitária da cama, ela abraça o próprio corpo e murmura: “Boa noite, meu amor”.

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